segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Felicidade, Fantasia e Contemporaneidade.




M. Alexandre Esteves.
O primeiro pensamento que deve passar pela cabeça de uma pessoa quando falamos de fantasia, ou melhor, do fantástico é: “ Por que?” “Qual a razão de falarmos sobre isso?” e com certeza muitas chegarão a afirmação: “ A fantasia não condiz com o pensamento da época, ao nosso pensamento contemporâneo”.
Bom, por essas perguntas é que escrevo, e é a elas que busco uma resposta, se não correta mais favorável a uma resposta afirmativa. E para começarmos proponho o seguinte questionamento. Afinal, o que é o fantástico?
O filosofo italiano Giorgio Agamben da uma resposta simples a esse questionamento. Ele, posso dizer, surpreende a todos ao falar que “ A magia é a Felicidade” – podemos ai fazer a relação entre a magia e nosso tema principal, a fantasia; afinal o que é a magia que não uma boa fantasia? -. Em seu ensaio Magia e Felicidade ele nos diz:
 [...]a  primeira experiência que uma criança tem do mundo não é a de que “os adultos são mais fortes, mas sua incapacidade de magia [...] É provável alias, que a invencível tristeza que as vezes toma conta das crianças nasça precisamente dessa consciência de não serem capazes de magia [...]. (AGAMBEN, 2007; 23).
Ele ilustra muito bem um pensamento de algo que para muitos adultos não significa nada; e é por essas e outras que acredito que nenhuma sabedoria ganha da inocente ignorância infantil, afinal heis ai um belo exemplo. A criança sabe que não pode fazer magia – é ai quem sabe que descobre que sua carta de Hogwarts nunca irá chegar-, mas sabe também que não há felicidade sem esta magia.
A magia então é posta como algo impossível, como um mundo de sonhos; algo inalcançável, como de fato o é. Ai é que a fantasia e a felicidade se fundem, afinal a felicidade também é algo inalcançável.
 Uma pessoa nunca é feliz! Para o homem a felicidade está sempre à frente, na ideia de uma meta, esta que está sempre se afastando. Uma pessoa só se da conta de que é feliz no momento em que deixa de ser, isso se prova no surgimento daquelas expressões do tipo: “ Puxa eu era feliz e não sabia”. A felicidade então não passa disto, uma ilusão; algo que é posta em outro plano, que estamos sempre tentando alcançar. Hora e não foi isso o que a pouco se disse da fantasia?
Vemos na história do homem, desde que este começou a se expressar pela forma da arte, está busca pelo fantástico; pela felicidade. Vemos isto na figura de tantos mitos, dos quais os Campos Elíseos; Valhalla; Jardim do Éden e as buscas por Shangri-la; El Dorado e Atlântida são alguns exemplos. E não seria está a maior prova de que o homem sempre pensou como uma criança? Ou melhor, de que este pensamento ancestral da natureza do homem resiste no pensamento de uma criança?
O fantástico então nada mais é do que a sede do homem pela felicidade. Com este pensamento, ficamos mais perto de uma resposta do por que se falar do fantástico, embora esbarremos em outra pergunta e está seria, O que fazer com este pensamento?
Esse ultimo questionamento nos aproxima mais das respostas almejadas, pois faz com que nós aproximemos mais o fantástico do sujeito, afinal é aqui que encontramos a figura de nosso primeiro individuo: O leitor Fantástico.
Voltemos por um instante a figura da criança, o que faz ela quando se dá conta de sua incapacidade mágica? Hora ela não faz como o homem primitivo e se apega a arte? E dentre as artes, não seria a literatura a prova de que o homem pode fazer magia?
O leitor fantástico se compara ao que nosso filosofo italiano fala a respeito do ser contemporâneo, em seu ensaio intitulado o que é o contemporâneo Agamben nos diz: “Um homem inteligente pode odiar seu tempo, mas sabe, em todo caso que lhe pertence irrevogavelmente, Sabe que não pode fugir ao seu tempo” ( AGAMBEN, 2009; p.59).”  a exemplo do contemporâneo, o leitor fantástico sabe que está preso a seu mundo, e não vive procurando por ‘duendes e fadas’ nele. Ele sabe que no mundo real esse tipo de coisa não existe, e ele está fadado a este mundo.
O leitor fantástico seria aquele, não que pensa como uma criança, mas que mantém o espírito do homem primitivo mesmo depois de ter crescido. O leitor fantástico é todo aquele que procura a felicidade, aquele que tenta a alcançar. Aquele que vê aquele mundo de sonhos por uma janela e que é para ela que esse volta, na tentativa de se esquivar deste plano no qual está preso.
Mas ai chegamos a um ponto crucial. Chegamos a um segundo individuo aquele que faz com que este mundo de sonhos fique mais próximo do homem, que faz o olhar pela janela ser possível; aquele que se da conta que sim, o homem é capaz de fazer magia. O escritor fantástico.
Para ilustrar este segundo individuo retomo a fonte do qual tiramos o primeiro, no mesmo ensaio Agambem nos fala também:
Os historiadores da literatura e da arte sabem que [...] a tudo aquilo que no presente não podemos em nenhum caso viver [...] é constantemente lançado para a origem [...] e ser contemporâneo significa, neste sentido, voltar a um presente em que jamais estivemos [...] contemporâneo não é aquele que, percebendo o escuro do presente, nele apreende a resoluta luz, é também aquele que, dividindo e interpelando o tempo, está a altura de transformá-lo e de colocá-lo em relação com os outros tempos [...] (AGAMBEN, 2009; p. 70-72). 
Hora não poderíamos pensar no Escritor fantástico como alguém nestes moldes? Se pensarmos nele como a evolução de nosso primeiro individuo, ele não seria alguém que em sua busca por aquele mundo de sonhos; em busca por aquela felicidade que está sempre a um passo a sua frente. Não se torna capaz de dobrar os planos fazer uma fissura no limiar das fronteiras entre esses dois mundos, aproximando o mundo ao que está preso a aquele mundo de sonhos almejado em um grau onde esses dois possam se tocar? E ao fazê-lo nesta fissura cria um terceiro mundo – em uma certa media – cria um simulacro onde ele é capaz além de apenas olhar o reflexo dos sonhos jogar elementos do mundo real nele, para que possam ser refletidos de volta e até reconhecidos por aquele que irá mais tarde observar.
Portanto deixo aqui minha resposta, e espero que ela seja ao menos satisfatória. Por que falarmos sobre o fantástico? Hora falar sobre o fantástico é falar sobre a própria natureza do homem, e voltar ao tempo onde o homem buscava a felicidade, onde estava mais próximo de seus sentimentos; onde se via mais como homem e menos como Maquina.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Der Seemann.




E
stou tão sozinha. Eu sinto frio, minha barriga dói, dói tanto, só não dói mais do que minha cabeça. Mas essas não eram as piores dores. Sentir-se sozinha ainda doía mais.
Estou casada, e molhada. Estou à deriva no imenso mar de água salgada agarrada a um pedaço de madeira para não afundar. Já chorei tanto que passo a achar que aquela imensidão azul se encheu só com as minhas lágrimas.
Estou tonta e enjoada pelo balanço continuo das ondas. Agarro-me ao pedaço de madeira com todas as forças que me restam, muito embora não sejam tantas, temo afundar a qualquer momento. Mas quase não me importo com isso, quase anseio por isso.
Não sinto mais minhas pernas. Minhas mãos além de casadas doem, a madeira a qual seguro era repleta de farpas que machucavam minhas mãos, mas eu a adorava. Eu amava aquele pedaço de madeira, afinal ele já estava comigo há tanto tempo, já havia passado tanta coisa com ele, além do que tinha lutado muito para consegui-lo. Eu estava mais sozinha antes dele, agora ele era minha única companhia. Mas mesmo assim segurá-lo me cansava.
Estava frio, e eu estava faminta. Uma parte de mim queria que eu afunda-se a outra agarrava com força a madeira. Vi o céu se aproximar e então descer, demorei a entender, que tinha sido uma enorme onda que passará por mim.
 Minha cabeça doía, havia uma parte dela me torturando, e eu estava enjoada. Mas aquela outra dor que sentia era a que mais doía, afinal eu estava sozinha. Aquela dor era pior por que não passava. Não importava o que fizesse ou quanto tempo passa-se a dor perdurava, essa dor era na minha cabeça. Essa dor era no meu peito, onde ela me sufocava, onde as vezes fazia ficar difícil respirar. Essa dor era na barriga, onde parecia chegar até as tripas como agulhas, agulhas geladas, pois meu estômago revirava como se ali estivesse um vento frio, um vento como o de outono. E também meu corpo, não o físico, mas aquele que parecia ter no meu interior, talvez fosse aquilo que outros chamassem de alma, bom não sei, mas ela doía profundamente. Era como se eu não tivesse forças para nada. Essa era a dor de se estar sozinha.
Eu queria descansar, e percebi que estava começando a afundar, e o pior não me importava...
─ Hey! ─ ouvi uma voz rouca ao meu lado, me assustei afinal estava sozinha. ─ Você por um acaso não é a morena de sotaque engraçado?
─ Olha? ─ eu pude sussurrar, olhei para a direção da voz, e identifiquei a figura de um barco, ele era pequeno, pouco maior que um bote, o casco era marrom de uma madeira velha. E no mastro tremulava uma vela, uma vela esfarrapada de cor negra. No convés de frente para mim estava um homem. Ele era velho, tinha ralos cabelos brancos uma barba mal feita de um castanho virando branco, seu rosto era velho e abatido, seu sorriso era cansado, seus olhas eram de duas cores, o da direita verde, o da esquerda castanho. Eles estavam tristes, me deram medo, mas eu sentia um pouco de afeto na maneira como ele me fitava ─ Não, sinto muito, acho que não sou.
─ O que faz aí sozinha? ─ ele me pergunta se apoiando em uma vara enorme que deveria ser seu cajado isso fazia ele parecer ainda mais velho.
─ Não sei, estou a deriva... acho.
─ Hm ─ o velho coça a cabeça depois a barba ─ Venha para o meu barco ─ ele me chama.
─ Hã? ─ respondo perdida me agarrando ao meu pedaço de madeira ─ não obrigada ─ ele me olha intrigado depois olha para o horizonte. ─ Venha, uma tempestade se levanta. E a noite se aproxima, vamos! Venha para o meu barco, você não precisa ficar aí sozinha. Aonde você vai assim tão sozinha? Eu me pergunto,  levada embora pela correnteza com certeza, venha entre no meu barco.
─ Já disse que não, desculpe, estou segura, tenho esse pedaço de madeira, ele já me ajudou muito e ainda me ajuda.
─ Você quem sabe, mas parece estar tão sozinha. Responda-me, quem segurará sua mão? Quando isso - ele indica minha madeira com o queixo barbudo ─ te afundar? ─ aquilo me encheu de raiva.
─ Para onde você vai? Marinheiro. Neste interminável mar gelado?  ─ minha pergunta o deixou assustado.
─ Não sei... ─ respondeu honestamente o homem do mar ─, mas a quero aqui, venha para o meu barco.
─ Por que eu faria isso? ─ perguntei, neste momento a madeira se virou e eu mergulhei na água, quase não consegui voltar, mas então senti duas mãos em meus ombros, o marinheiro me puxava para a superfície. Quando emergi  me desvencilhei de seu toque e lutei para chegar ao meu pedaço de madeira.
─ Desculpe, não queria te assustar, e não quero fazer-te mal, quero ajudar-te.
Eu senti verdade em sua voz, uma parte de mim queria ir com ele, à outra queria que eu ficasse agarrada a madeira, qual era a parte boa ou a má eu não sabia, estava muito confusa.
─ Responda-me, oh marinheiro, por que deveria ir com você? ─ perguntei, ele ficou em silêncio por um instante, um trovão ribombou no horizonte e ele começou a falar.
─ Venha para O meu barco... O vento de outono mantém as velas dele firmes, você não precisara se cansar em remar. Eu posso ver, um futuro em que você fica em um farol com lágrimas nos olhos, mas essas não seriam de tristeza. À essa hora o dia se inclina e o vento de outono varre a vida das estrelas. Eu sei que a luz do entardecer persegue as sombras, veja para mim o tempo está parado e o outono logo chegará! 
─ Você é muito filósofo meu caro Marinheiro e eu não entendi uma só palavra do que disse, diga-me por que iria com você, já que também não sabe para onde vai?
─ Venha para O meu Barco, pois sim eu não sei para onde vou, afinal não tenho  nenhum timoneiro  que não a saudade, se você não vier continuará sendo assim, mas se você vier você se tornará meu timoneiro, e juntos acharemos um caminho. Não posso prometer que será mais seguro em meu Barco, afinal sempre a uma tempestade, mas meu Barco me parece que iria agüentar melhor do que a esse pedaço de madeira seu. Veja houve um tempo em que o melhor marinheiro era eu, quem sabe eu volte a ser?
Sim eu queria ir, mas não podia, aquela parte que me segurava a madeira era muito forte, e eu tinha medo de confrontá-la.
─ Não ─ eu respondi ─ vou ficar bem aqui.
─ Bom se é assim que quer ─ ele endireita a postura com uma das mãos nas costas como para aliviá-las de alguma dor ─ não posso a forçar a nada, e bom você bem pode ver que estou velho e cansado de mais, não posso lutar por você, você tem que me ajudar para que eu possa lhe ajudar. ─ Ele responde e começou a remar com a sua vara, uma parte de mim queria gritar para que ele voltasse, ou que ele ficasse mais um pouco. Ou insistisse mais um pouco, mas também não podia o obrigar a nada, e ele parecia tão cansado, e eu não queria ser mais um problema para ele. No fim só fiquei o olhando partir. Uma névoa aos poucos escondia o barco, tinha a sensação de que ele remava para o caminho errado, afinal ele ia de encontro a tempestade, eu queria dizer algo, mas não disse.
No fim só ouvi sua voz rouca cantando alguma canção do mar enquanto o barco desaparecia, algo que de início não estendia:
"... Wo Willst du Hin....
 No fim eu fico sozinho... o tempo está parado e eu sinto tanto frio....
frio....
frio...".

A história do marinheiro.




E
stou à deriva na água, no meio do mar eu fico boiando ao prazer das ondas. Não faço ideia de como cheguei aqui, e não tenho forças ou esperança para dali sair. Meu corpo inteiro dói, posso sentir meus cabelos ensopados compridos e quebradiços por conta do sal da água grudados na minha face.
Minha boca está seca, minha garganta está seca, não sei se é de sede ou de tanto gritar. Meus olhos lacrimejam, culpo o sal da água, a luz o sol, mas nunca iria admitir que as lágrimas eram de tristeza.
Eu vejo sua imagem na luz do sol que me cega, levo a mão para fazer sombra.
─ Eu te amo! ─ sussurro com a voz rouca para o vento, minha mão se fecha e eu dou um murro na água ─ Eu não te amo mais! ─ eu grito para o nada ─ Eu não te amo mais, ou menos do que você tenha me amado, ou que você não tenha me amado, será que um dia você me amou? Já não tenho certeza, acho que não, pois se um dia o fez, por que me abandonou?
Eu fico em silencio ouvindo o som abafado das ondas em meus ouvidos, olhando para o céu azul, não havia nenhuma nuvem no céu. Meu corpo dói, todo ele, mas o que sinto é cansaço. Sinto uma dor me sufocar o peito, uma vontade imensa de gritar, mas mesmo ali no meio do nada não o faço, por vergonha de alguém me ouvir. Por isso reprimo esse grito, mas sinto que uma hora ele vai me sufocar.
Lembro agora do que me aconteceu, a menina mais bonita, morena da cor do chocolate, com seu jeito de menina com a cabeça de mulher adulta. Ela sofria, eu a queria, mas ela só queria ajuda. E isso eu lhe dei.
Não sei o que se passa, devo saber ser amigo de mulheres, afinal isso é o meu melhor Dom sou bom nisso, tão bom que acaba virando minha maldição, pois nenhuma consegue olhar-me diferente. Mas no fim, a menina mais bela não era mais bela.
Foram tantas caricias, o calor de suas mãos nas minhas, lembro-me disso, mas suas mãos quentes ficaram tão frias... No fim todos os relógios pararam. E eu me encontrava a deriva, o riso não era mais saudável, e em breve nada mais importaria. A penas a dor havia restado.
Mesmo depois de muito tempo, eu ainda procurava você atrás da luz. Sabia? Onde está você? Eu perguntava, mas eu mesmo a impedia de responder tapando meus ouvidos, Você me machucou, de mais, você sabia que eu estava quebrado, que me escondia para me proteger, mas mesmo assim uma a uma foi derrubando minhas defesas, para no fim rir do que eu era.
─ A eu não te amo mais ─ falei rindo ─ tampouco lhe odeio, o tempo me ensinou que apenas uma coisa é pior do que o ódio... A indiferença, e é isso que eu sinto por ti.
Eu a vejo claramente, e agora penso, que a menina mais bonita não era assim tão bela, suas mãos não eram quentes, eram frias. Me jogaram novamente a deriva no mar onde o tempo não passa.
Você me fez esperar em uma cama de espinhos, e eu tolo esperei, e dormia com uma faca sobe meu pescoço, mas paciente esperava. Agora sei que você não valia a pena.
─ Por favor, me sinto tão sozinho, e sozinho eu não quero mais ficar...
─ Parado ai é que você não vai mudar isso Uai! ─ uma voz engraçada falou perto de mim, eu levei um susto perdi a concentração e quase me afoguei.
─ Quem é você? ─ eu pergunto cuspindo água quando consigo voltar a superfície. Havia um barco ancorado ao meu lado. E na amurada do convés debruçada uma menina me olhava sorrindo, ela era igual a outra, mas eu sabia que era diferente.
─ Você fala engraçado ─ ela respondeu.
─ Falo nada ─ respondo ofendido ─ você é que fala igual uma coitada... Seu sotaque é que é engraçado.
─ Meu sotaque é Sexy ─ ela responde em um muxoxo ─ vamos o que faz ai parado, você não queria ficar sozinho eu lhe trouxe um barco para navegar, vamos venha a bordo.
─ Por que eu faria isso? Por que navegaria? Para onde eu iria? De que me adiantaria um barco se não tenho destino nenhum?
─ Hora, quem sabe este barco te leve até alguém que realmente valha a pena... Vamos, venha a bordo.
   



What I should have did.
O
 ônibus estava lotado, mas já esteve pior. Dei sorte, geralmente a está hora os ônibus em Curitiba mais parecem uma lata de sardinha; hoje pelo menos eu poderia respirar.
─ Eu te disse Andressa ─ eu falo para uma amiga que entra ao meu lado ─ Se eu perco um busão eu não fico preocupado ─ eu dou de ombros indiferente ao falar ─ Eu posso pegar outro busão, mas o busão não pode pegar outro eu!
─ Nossa cara ─ ela fala rindo e socando meu braço com uma força desnecessária pode-se dizer ─ você é muito idiota, você acha que sua vida brilha ao seu redor!
─ À quem diga isso... ─ eu a respondo rindo. Foi então que eu a vi, e por um momento tudo ao meu redor parou. Afinal eu havia visto um anjo.
No fundo do ônibus. Ela estava sentada com uma mochila no colo, seus cabelos eram vermelhos, sua pele alva, seus olhos negros. Ela sorriu para mim no ônibus. Sua camisa era cinza e estava estampada com a imagem da estrela da morte. Parecia triste e no mesmo instante tive vontade de abraçá-la e fazer com que aquela tristeza passa-se. Ela estava triste mesmo assim sorria, em certo ponto ela lembrava a mim mesmo, eu soube ali que ela era a única que poderia me entender. Ela não poderia existir, devia ser minha imaginação. Por isso a confundi com um anjo, e isso era verdade. Ela sorriu para mim no ônibus.
Ela estava com outro homem, pude ver pelo jeito que ele estava ao seu lado. Ele era loiro, e maior do que eu e estava com uma blusa com o capuz na cabeça. No momento que vi que ele estava com aquele anjo eu o odiei, afinal, sim estava frio, mas o ônibus estava fechado e qual é o motivo para se usar um capuz em carros e ônibus fechados? Pronto falei, Odiei o cara.
Então ela estava com outro cara? E daí não perderei meu sono por isso.
─ Deus como ela é linda! ─ eu sussurrei ─ você é linda. E isso é uma verdade.
Eu via o rosto dela em um lugar lotado, e eu não sabia o que fazer.
Quem sabe nos encontraríamos outro dia. Talvez ela passa-se por mim em uma rua do centro, ou no Shopping. Sim, ela iria chamar minha atenção, e nesta hora talvez ela pudesse ver em meu rosto que estaria voando alto. Muitas vezes me falaram que eu voava alto para evitar a estrada, mas acontece que adoraria que ela voasse ao meu lado.
O ônibus arrancou eu ainda paralisado tinha apenas uma consciência de que o tempo não havia parado. Meu coração martelava no peito. E eu não sabia o que fazer, foi neste momento então que pensei: “ Acho que não a verei novamente”, o pensamento me entristecia e me dava medo, mas eu podia ver pelo seu olhar que ela me entendia, que nós havíamos compartilhando um momento que durará até o fim.
De repente estávamos juntos, éramos amigos e era verdade ela estava triste. Era noite, ela dizia que estava confusa. Eu a olhava e queria ajudar, mas não podia. Eu a olhava e mesmo ali, eu não sabia o que fazer. Queria tocá-la, pousar minha mão em seu rosto para quem sabe lhe dar algum conforto. Queria abraçá-la, ela poderia chorar, mas eu estaria ali ao seu lado. Meu cérebro podia ver minha mão se movendo, mas meu corpo real não se movia, ele apenas a tudo assistia.
Talvez eu não fosse o homem certo para ela, mas com certeza queria fazer de tudo para ser, mas ela já tinha alguém, afinal ela estava com um outro homem. Tudo que podia fazer era ficar ali.
O tempo passava e a vontade de estar ao seu lado só aumentava, e com o tempo ela já era maior que tudo. Já pensava em inventar um outro mundo, lá onde não existiriam fronteiras. Minha cabeça era uma guerra, me via no meio de uma ponte. O caminho que pegará me levará até ali, eu acreditava que devia ter parado lá na frente onde via uma placa amarela e negra alertando “ Perigo”, mas não o tinha feito, afinal quem iria me impedir de andar em uma estrada? Aquilo era apenas uma placa.
Estava em uma ponte, o caminho era escuro, mas eu via o futuro e ele repetia ao passado. Eu sabia que iria acabar quebrando a cara, já conhecia aquela sensação de estar dando murro em ponta de faca.
Estava em uma ponte, eu sabia que o caminho era difícil, e que me machucaria, mas eu não tinha outra escolha. Quer dizer, até tinha outra escolha, mas não queria tomá-la, pois ela me machucaria igualmente e bom acho que a ela também, e isso era tudo o que eu não queria: Causar-lhe mais sofrimento, afinal ela já havia sofrido tanto. Não, eu não voltaria atrás, continuaria seguindo em frente.
Então era outra noite que se ia, ela ainda dizia que esta confusa, e que não tinha certeza de que eu realmente a queria. A como tive vontade de gritar o quanto a queria, de quanto ela era a única luz em minha vida, que talvez com ela sim minha vida fosse brilhante. Mas como falar que meu amor era puro se nem ao menos acredito que se trata disso? Afinal o que eu sei sobre isso? Talvez ela estivesse certa e era apenas meu extinto protetor que queria cuidar dela.
Anos passavam, nossas vidas aos poucos foram se ajeitando. Afinal sim nós merecíamos, em fim estávamos felizes, Bom ela estava; o que me deixava. Como todos disseram sua vida foi brilhante. Ela conseguiu tudo que quis, e como eu a disse uma vez, estava lá olhando seu voo do chão.
Sempre que ela se encontrou em uma situação que achou que não podia superar estive lá, a abraçava e dizia: “calma, eu tenho um plano” então depois de muito andar cheguei ao fim daquela ponte.
Ali em baixo de um poste de luz laranja ela pegou minha mão, eu já sabia o que seguiria, afinal já havia previsto aquele fim; a hora que Perceu deixaria a ilha. Ouvi o fim de uma musica chegando como eco da rua deserta: “La la la la la la la la la”
Ela me abraçou eu senti o calor de seu corpo junto ao meu, sua respiração em meu peito passei minha mão em seu cabelo, talvez ela estivesse chorando, e eu não queria a soltar, mas em fim o fiz. Ela foi falar alguma coisa eu a impedi com o indicador, ela tentou desviar o olhar, mas com minha mão em seu queixo a fiz fitar meus olhos.
Ela sorriu, o que fez minhas palavras serem mais difíceis de serem ditas.
─ Deve ser um anjo, com um sorriso no rosto. E eu realmente pensei que deveria ficar com você...
─ Hey, congelou ai? ─ Andressa me chamou me empurrando para frente.
─ É, chegou a hora de encarar a verdade... Eu nunca ficarei com você ─ de volta ao ônibus lotado eu sussurrei para ela que já estava abraçada com o outro cara ─ olha ali um lugar vago vamos sentar ali? ─ falei para Andressa então.
─ Tá muito na frente, mas tudo bem né, melhor do que ficar de pé, e pelo menos fica longe da entrada dos idosos...